A pouco mais de um ano atrás, Kentaro Miura, criador de Berserk, nos deixou. Foi tão repentino que nem o próprio autor considerou deixar algum material de referência para outros continuarem, e ficamos com um final de múltiplas interpretações ao final do capítulo 364, o qual por si mesmo já foi completado com a ajuda de seus assistentes. A obra como um todo já é repleta de interpretações, mas esse final deu muita margem para novas possibilidades de desenrolar da história. Será que a Mão de Deus vai entrar na ilha dos elfos?


Felizmente, agora ao início do mês de Junho de 2022, tivemos o tão aclamado pronunciamento da Young Animal, junto ao estúdio Gaga de Miura, que com o auxílio do amigo de longa data, Kouji Mori, será possível continuar a história de Berserk até o final original. Claro que teremos as limitações de Mori e dos assistentes, que ele já deixou claro, e também não teremos os toques pessoais do autor original, mas poderemos chegar a uma conclusão da saga de Guts, e ter uma ideia bem nítida para onde Miura tentava nos levar ao longo dessas três décadas de Berserk.


Isso tudo junto de uma releitura me trouxe a refletir mais sobre a obra, pois ando estudando técnicas de narrativas a mais de ano e busquei trazer para a consciência o que mexe conosco em cada página de Berserk. Sem muitas explicações complicadas, vou focar no que é o clássico de uma história e como chegamos a conclusão de ser um épico a jornada desse (Anti) Herói, que é Guts e seu vilão, Griffiths. Sendo assim, dividi em quatro aspectos para explicar a razão por qual Berserk mexe tanto com os nossos corações.

São eles:

  • O drama: a busca
  • A tragédia
  • A arte pela arte
  • O épico

O drama: a busca

Em uma obra drama é tudo. Não falo exatamente do gênero narrativo da melancolia, a tristeza, que claramente temos em Berserk, mas em um aspecto do clássico. Segundo Aristóteles, o drama é a imitação de uma ação que tem como consequência um efeito de catarse. Então, o drama é a ação que traz emoções, é o fio que está prestes a arrebentar a qualquer momento em uma história e não conseguimos parar de acompanhar. É literalmente a alma do negócio, se compararmos uma obra com um comércio. Sendo assim, Berserk facilmente nos deixa presos ao seu drama.


Seguimos a jornada de Guts em sua busca por vingança, e vamos descobrindo que não é simplesmente vingança, mas uma busca que tange o espiritual, o elevado, sobre uma pessoa amaldiçoada por assim dizer, que busca seu lugar no mundo, seu conforto, seu amor, e assim tratando das peripécias do destino na vida de um homem, o drama é claramente esse. Guts é constantemente jogado em dificuldades, em situações desesperadoras, de vida ou morte, que precisa escolher sobre quem proteger e quem deixar ir, e isso gera uma linha invisível na história que não conseguimos parar de acompanhar: isso é o drama.


Vale o mesmo para o sonho de Griffiths, o qual transforma todos os fins como meios para seus objetivos frios e pisa no cadáver de quantos precisar, mesmo algumas vezes quase nos fazendo acreditar em uma mudança de caráter do personagem, no fim, ele engana até nós pois tudo que ele faz é para alcançar seu pontinho no céu (ou inferno).

A tragédia

Toda grande história é também uma grande tragédia. A perdição, o fundo do poço, o encontro com a morte onde heróis se revelam ou esperanças morrem. Em Berserk é muito fácil de se notar essa curva da história: no ato do Eclipse.


Segundo a Wikipédia: Tragédia é uma forma de drama que se caracteriza pela sua seriedade e dignidade, pondo frequentemente em causa os deuses, o destino ou a sociedade. Todos temas tocados durante a obra.


O Eclipse traz para o visual tudo de ruim que os egos das pessoas podem materializar. A luxúria de Slut, a gula e preguiça de Conrad, a enganação e mentiras de Ubik, a ira de Void e a inveja de Griffiths por Guts. Essa inveja podemos analisar como o fato de Guts ser senhor de si mesmo, um homem livre e capaz de escolher seu destino, diferente de Griffiths que tem seu destino já escolhido pela Mão de Deus, e no final antes de chamar os anjos, o Griffiths então não aceita estar abaixo de Guts de jeito nenhum, quando se compara a sua forma física com a dele.


A própria temática do sacrifício nos traz também pela etimologia da palavra a ideia de um ritual simbólico e trágico, de antigos hábitos da natureza de algumas culturas humanas, por assim dizer, ao mesmo tempo que ao se sacrificar por outro transmite um ato de nobreza e valentia. O fato desse sacrifício ser totalmente o inverso desse sentimento de nobreza, traz um choque e um amargor para a alma do espectador, somado a toda a pinta de crueldade que a cena traz. Ficamos espantados com o que o ser humano literalmente é capaz em atos de violência e pecados.

A arte pela arte

Ainda quando falamos do clássico e atemporal, o qual Berserk se provou no tempo, passando mais de três décadas e continuando altamente relevante mesmo nos primeiros capítulos. Berserk nos remete a um conceito que parece bastante óbvio, mas infelizmente muitas novas obras contemporâneas acabam não reproduzindo mais ele, e portanto, seu fracasso ou baixa relevância acaba sendo iminente, especialmente em mídias de audiovisual, que andamos vendo na Netflix e Disney principalmente para o público mais nerd: a arte deve acontecer apenas pela arte. A arte pela arte.


Arte pela arte é um sistema de crenças que defende a autonomia da arte, desligando-a de razões funcionais, pedagógicas ou morais e privilegiando apenas a Estética. A origem desse conceito remonta a Aristóteles, mas só consolidado em meados do século XVIII.


Em Berserk, por mais que você tente encaixar inúmeras alegorias possíveis, basta os olhos de quem vê, a obra é completa em si mesma. Não existe uma mensagem direta ao leitor sobre modos de conduta, política ou opiniões pessoais do autor na obra. É puramente a arte pela arte.


Em entrevistas no Guia Oficial de Berserk, o próprio Miura comentou aplicar o efeito Disney, que é um efeito que transporta a mente das pessoas para o mundo mágico com os novos conceitos da história, visivelmente aplicado em Berserk. Pois quando estamos dentro da história, não julgamos os atos da história como se fossem no nosso mundo real.

O épico

O épico ou a épica, é um gênero literário no qual o autor apresenta de forma objetiva fatos lendários ou fictícios acontecidos em um tempo e espaços determinados. Épico é usado também para adjetivar um feito memorável, extraordinário, uma proeza, algo muito forte e intenso.


Quem nunca se imaginou vivendo em um mundo com muito mais encantos e fantasias do que o nosso? Bosque de contos de fadas, espadas, magia, o sobrenatural, criaturas como o Punk e magos como a Schierke, além de cavaleiros, nos remetem a nossa infância, a nossa essência. São coisas que tiram nossa alma de criança para fora do casulo e nos permitem ter experiência muito mais vividas e conscientes por mais que não notemos.


A própria escolha do Falcão como símbolo de Griffiths, um animal nobre, que voa e passa por todos de forma suave. Conquistador e territorialista ao mesmo tempo. A dinâmica de bem e mal entre o protagonista e o vilão, onde quem é o bonzinho se veste de mal e o malvado se veste como um príncipe.


Essa intensidade e contraste toca na nossa essência, nos identificando com todos os aspectos da história, e fazendo mergulhar nossa consciência e tomar como se fosse com nós mesmos as dores e louvores que acontecem na história. Por isso vibramos quando Guts derrota Boskone de uma maneira inesperada, e choramos, amarguramos, junto com ele quando Guts se lembra do seu passado feliz que nunca mais vai voltar junto ao Bando do Falcão.


E o somatório dessa jornada do Guts, é o que cria o sentido extraordinário, que tudo que ele fez não é em vão. Vejam bem, é a jornada e não o final dela que faz da história ser épica.


Claro que eu também estou empolgado com o lançamento de mais capítulos e quero muito saber o final dessa jornada, apenas estou deixando minha opinião sobre o que foi criado até então por Kentaro Miura. Espero que tenha gostado dessa pequena análise e reflexão.