homem da mafia
Contos

Caçada

Eu nunca imaginei que algum dia seria caçado.

A chuva descia severa pela cidade naquele final de tarde. Só que por mais molhado que estivesse, o trabalho não poderia parar. O Caçador tirou as duas pistolas semiautomáticas do capote, ajeitou o chapéu na cabeça e adentrou no prédio pela saída de emergência.

Nem que algum dia haveria um prêmio pela minha cabeça.

O tiroteio não demorou a começar. Seguranças com ternos pretos e camisas brancas estavam posicionados em diversos pontos estratégicos e disparavam contra ele, contudo a experiência o deixará silencioso e preciso. Apenas um tiro, uma morte.

Sabe, eu sou do tipo que gosta de ação e adrenalina.

Um homem com uma metralhadora começou a atirar freneticamente, estourando todas as janelas e os miolos de alguns coitados que ficaram no caminho. O Caçador se jogou atrás de uma mesa e recarregou suas armas.

Eu, desta vez sendo o alvo, e ainda assim matando mais do que deveria.

O sujeito com a metralhadora estava confiante, e chegou perto demais. Suficiente para que um barulho atravessado o fizesse olhar para o outro lado e nem ficar sabendo de onde veio o tiro que o atingiu por trás da cabeça.

Negócios são negócios, mas as vezes é bom estar tranquilo e sossegado.

Com um chute arrombou a porta para a próxima ala do escritório, se jogando ao chão com um rolamento rápido e para evitar possíveis disparos.

Se já pensei em parar?

Deu uma espiadinha. Área limpa. Se levantou e foi ligeiro até o outro lado.

Muitas vezes.

O Caçador viu na mesa a sua frente um porta retrato de uma família feliz. Um homem, uma mulher, um filho pequeno e um cachorro.

Principalmente aqueles dias que passei com Jaine.

Pensar em Jaine lhe trouxe um sorriso no canto da boca, que se apagou num instante. Talvez tivesse acabado de destruir aquela família. Assim como já fez com várias outras.

Esses pensamentos deprimentes de novo. Preciso de um cigarro.

O homem largou as armas na mesa, sacou um maço de cigarros do bolso e um isqueiro. Enquanto terminava de acender, uma mulher abriu a próxima porta, avançando contra ele com uma espada. Ele foi obrigado a se jogar de costas na mesa, caindo no outro lado, derrubando os itens na mesa consigo e deixando o maço cair no chão, incluindo suas armas e o cigarro recém acesso.

Cara, eu também preciso parar de fumar. Que merda estou fazendo com minha vida.

Recuperou rapidamente as armas. Rolou para frente, desviando de outro golpe da espadachim e já disparou contra ela, acertando na coxa.

Entrar na máfia parecia uma sabia decisão no início.

A mulher caiu no chão, não conseguindo mais ficar em pé e olhando nos olhos do homem que a acabará de atingir.

— Eu acertei sua artéria femoral. Vai sangrar até a morte ou quer que eu acabe logo com isso? — O Caçador mirava na testa da mulher caída.

Uma poça de sangue se formava ao redor do ferimento e o cheiro de ferro no sangue contaminava o ambiente junto ao cheiro de pólvora, ambos providos de diversas fontes.

— Por que você faz isso?

— Às vezes nem eu sei explicar moça. Simplesmente a vida me moldou assim.

Antes de dar o último tiro, o Caçador viu o retrato no chão novamente, percebendo que era a mesma mulher na foto. Ele deu meia volta.

— Reze para que os médicos cheguem a tempo.

Movida pela força da fúria, a mulher ignorou o sangue jorrando e a dor da perna ferida para avançar com a espada pelas costas do Caçador.

O homem, no mais simples reflexo, como se estivesse acostumado a fazer isso a anos, se virou e deu um tiro certeiro na testa da vítima. Ao ver o corpo caído da mulher, ainda com olhos arregalados, o Caçador se abaixou, posicionou o corpo de uma forma mais confortável, com a gentileza de como se aquilo importasse para o cadáver e por fim fechou seus olhos. Abaixou um pouco o chapéu, três segundos de silêncio bastavam, pois era tudo que podia oferecer naquele momento.

Parece que só vou conseguir fumar em paz quando isso tudo acabar.

O homem juntou do chão o maço caído e pós no bolso do capote. Arrumando o chapéu e os punhos da camisa também ele continuou a avançar para a porta aberta que o aguardava.

Um carpete vermelho decorava todo o chão da sala, junto a uma mesa de madeira rústica e bem detalhada. Atrás dela, uma enorme poltrona de couro marrom estava virada.

— Eu sabia que viria me visitar afilhado. 

— Padrinho, eu temo que não podemos mais chegar a um acordo de paz.

A grande poltrona se virou lentamente na direção, apresentando um homem grande e de visual impecável. Camisa social branca, gravata vermelha e paletó de risca de giz sob medida somado ao acessório do chapéu de mesmo tecido. O Padrinho lixava as unhas com a maior tranquilidade do mundo, enquanto o Caçador levantou a mira.

— Conheceu a Luzia?

— Infelizmente sim.

— Era uma excelente funcionária. Bastante leal… assim como você já foi — o Padrinho desferiu um olhar que cruzou o peito do Caçador — Tem um cigarro aí? Eu gostaria de fumar uma última vez.

— Tome — o Caçador atirou com a esquerda o maço de seu bolso junto ao isqueiro, sem desviar a mira na cabeça de seu alvo com a pistola da mão direita. 

O homem em trajes sociais acendeu um cigarro e deu uma longa tragada.

— Sabia que nunca fumei nesse escritório? — Exalava a fumaça para o lado — Tinha o hábito de sempre ir na sacada fumar.

— E o que isso importa agora?

— Exato. Agora não importa mais nada. Deixe as cinzas caírem no chão. Contudo, a máfia que eu conheci sempre prezou por excelência. Aparência impecável. Aliás, belo capote, onde adquiriu?

O Caçador ameaçou apertar o gatilho da arma para desviar da pergunta. Detestava ficar divagando, mas tinha que respeitar a lei da máfia e ouvir até o final seu Padrinho.

— Pode me contar afilhado. Em qual foi o momento que falhamos contigo? Pois eu, seu padrinho, lhe garanti tudo que sempre precisou. Família, proteção, amor.

A cadeira alavancou para cima, enquanto o homem se reposicionava nela para pôr os cotovelos na mesa.

— Agora é tarde demais para falar sobre motivos.

— Ora ora. Nunca se é tarde demais. O rancor será sempre seu pior inimigo. Você tinha uma mansão no interior de Udine. Carro, mulheres, grana. O que mais um homem pode querer?

— Padrinho, com todo o respeito, você fala como se não soubesse o que você prega! Jogos, álcool, drogas e sumiços não constroem o caráter de um homem.

O Caçador tremeu sua mão apreensivo, voltou a firma-la quando pensou em Jaine. O Padrinho deu gargalhadas irônicas.

— Caráter afilhado? Caráter? — O homem socou a mesa com força, exaltando sua voz e apontando o dedo para o Caçador — Um homem que fez parte de minha família, que viveu sobre minha tutela, que ganhou o meu sobrenome, vem até o meu escritório e me acusa de falta de caráter? Vamos, me diga! O que eu pedi em troca?

Os dois se encararam em silêncio por um tempo.

— Fale agora Lucca!

O Padrinho se colocou em pé e novamente, no reflexo, como se estivesse acostumado a matar aqueles que lhe ameaçavam a vida, Lucca, o Caçador, atirou em seu Padrinho.

— Paz Padrinho! Vocês não podem e nunca vão me garantir paz enquanto viverem! — As lágrimas acumuladas por anos tiveram que descer no momento.

Atingido no lado esquerdo do peito, foi jogado de volta a cadeira e a dificuldade de respirar também lhe comprometia aos poucos a fala.

— Paz. Lucca… A vida que você escolheu nunca lhe trará paz. 

— Pare de falar antes que eu tenha que finalizar você. Nunca quis que chegasse a este ponto — o Caçador voltava a seu semblante sombrio e frio, evitando olhar seu Padrinho sofrer.

— Sempre deve haver um padrinho para a família dos Pasta. Lucca, você será esse padrinho! É seu destino.

— Sinto muito lhe desapontar Padrinho. A vida que eu quero para mim, não terá mais nenhuma conexão com a máfia.

Lucca de Pasta apertou uma vez mais o gatilho, atravessando a bala no coração de seu Padrinho, e a lágrima na fronteira de seus cílios.

— Eu também sinto, pois te amei como um filho.

Convocando suas últimas forças, o Padrinho apertou um botão a baixo da mesa, disparando o alarme antes de morrer.

O Caçador limpou as lágrimas no lenço de bolso e voltava a sua maratona de caça conforme guardas saíam das portas e trocavam tiros consigo.

Padrinho. A máfia me trouxe coisas que eu nunca imaginei ter quando criança. Só que ela tira e devolve na mesma moeda.

Agachado ao lado de uma mesa e de frente para uma janela estourada a tiros, o Caçador vislumbrou sua fuga.

Seus aliados e capangas podem continuar me caçando a vida inteira. Só que eles sempre se esquecem.

Lucca se atirou pela janela, se pendurando no corrimão da escada de emergência.

Tem dia da caça.

Um mafioso colocou sua cabeça para fora da janela procurando por ele. No reflexo, Lucca atirou e o matou, deixando o corpo exposto na janela.

E tem dia do Caçador.

Restam só mais dois assuntos do passado para resolver. Será que Jaine pode esperar?

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